Como melhorar sua habilidade de leitura em língua francesa: comece pelos quadrinhos!

by Administrativo maio 26, 2020

Uma das competências cobradas em todos os exames de proficiência que existem por aí, você já deve ter notado, envolve justamente a tal da “compreensão escrita”, que nada mais é do que a famigerada interpretação de texto, aquela mesma que te acompanha desde seus anos de ensino básico, na escola.

A diferença é que, agora, você é um estudante de língua estrangeira e, por isso, deve ser capaz de ler textos na língua estudada, e deles extrair não só informações pontuais, mas igualmente elaborar um sentido para aquilo tudo o que você está lendo – coisa que fazemos o tempo todo em nossa língua materna sem nem mesmo nos darmos conta disso, mas que se torna tanto mais desafiador quando estamos conscientemente tratando de fazê-lo em francês.

Mas a verdade é que não tem muito jeito: para dominarmos a língua francesa de uma vez por todas é muito importante alimentarmos o hábito da leitura, mas não de qualquer leitura, claro. Devemos dar especial atenção aos documentos autênticos que estejam em língua francesa, isto é, aos textos escritos por falantes de francês para falantes de francês. 

Isso nos ajudará enquanto aprendizes do idioma não só porque expandiremos inevitavelmente nosso vocabulário, mas porque, através desse hábito, conseguiremos igualmente alargar nossos conhecimentos culturais e humanos também na língua de chegada.

 

Quase não leio em português, vou conseguir ler em francês?

SIM! Você vai! Sabe por quê? É muito normal que as pessoas pensem, quando falamos em hábitos de leitura, na leitura de livros ‒ e aposto que, no seu imaginário, nunca é um livro pequenininho o qual você imagina. É sempre um negócio imenso com letras pequenas e espaçamento minúsculo, que só de pensar já te dá uma palpitaçãozinha no peito, não é? 

A consequência disso são falas como: “Imagina, se nem em português rolaria ler algo parecido, quem dirá em francês!”. Mas a boa notícia é que ninguém, absolutamente ninguém espera que você saia lendo Rousseau ou Stendhal por aí para melhorar o seu francês, a menos, é claro, que isso seja absolutamente da sua vontade, e uma das razões pelas quais você tenha querido aprender a língua. 

Mas se seus objetivos com o francês, pelo contrário, não incluem ler toda a Comédie Humaine, de Balzac, e seu noventas livros no original, vale pensarmos, então, em diferentes formas de implementar um hábito de leitura em sua vida, sem ter que, para isso, precisar ler livros da literatura clássica para começar.

Dito isso, uma coisa é certa: para essa empreitada dar certo, você deve começar lendo coisas das quais você goste e que te dão prazer, afinal, este exercício deve se tornar um hábito, e não uma sessão de tortura na sua vida.

E é por isso que, hoje, eu gostaria de falar dos quadrinhos, ou ainda das chamadas bandes dessinées em francês, como uma alternativa divertida para você começar a ler em língua francesa! 

 

Les Bandes Dessinées 

Você pode não ser grande fã de Literatura e não ter lido um livro sequer nos últimos meses, mas está aqui, lendo um artigo de blog (que não é dos menores, não é mesmo?), e com certeza, nesses últimos tempos, já deve ter assistido a pelo menos um filme, quer apostar? 

É inevitável, nós, seres humanos, somos viciados em narrativas. E por que isso pode ser relevante para o seu hábito de leitura? Bom, talvez não seja evidente, mas saber que você aprecia uma boa narrativa pode te ajudar a perceber as Bandes Dessinées (ou BD’s para os íntimos) enquanto obras que nutrem muitas semelhanças entre essas duas outras formas de arte, a Literatura e o Cinema, pois em comum, todas elas narram boas histórias. Assim, se você gosta de filmes ou livros, talvez goste também de ler quadrinhos.

Os quadrinhos, assim como os livros, nos contam histórias através de palavras escritas, mas não somente através delas. As imagens (no caso dos quadrinhos, as imagens fixas), quando colocadas em sequência, produzem algo de novo, que é muito semelhante, em termos visuais, àquilo o que ocorre nos hieróglifos egípcios, nas animações, e mesmo em filmes de modo geral – no cinema, no entanto, as imagens em sequência não são fixas, mas dinâmicas, uma vez que se encontram em movimento na telona.

Assim, diferentemente do que muitos podem pensar, as imagens presentes em uma HQ não servem apenas para ilustrar o texto escrito, mas criam, em conjunto com as palavras, o sentido daquela leitura. Histórias em Quadrinho não são, portanto, meros livros ilustrados, em que o texto escrito prevalece sobre as imagens. Até porque, se pararmos para pensar, conseguimos “ler” um quadrinho em que nada esteja escrito só pela imagem ali desenhada. 

Somos capazes de compreendermos os traços, cores e expressões representadas sem que uma única palavra seja dita em uma página inteira, justamente porque há  muitos elementos operando em uma única página dos quadrinhos que podem comunicar significados para além das palavras, como no cinema ‒ afinal, ninguém precisa enunciar, por exemplo, que um personagem está chorando quando vemos isso sendo mostrado seja em um filme ou em um quadrinho.

Contudo, vale lembrar que o contrário disso também não é verdadeiro: as imagens de uma HQ não se sobressaem sobre o texto. A força maior dos quadrinhos está, vale repetir, no que se produz na somatória desses dois elementos, visual e escrito.

No entanto, à diferença da Literatura e do Cinema, muitas pessoas ainda vêem na nona arte, nas Histórias em Quadrinho, uma arte menor, identificando-a como um gênero infantil, o que não é em absoluto verdade. As produções de BD’s, hoje, são das mais diversas possíveis, atendendo a públicos de todas as idades, não somente às crianças.

 

Grandes Festivais de Quadrinhos na Europa

Na França, inclusive, não só encontramos diversas livrarias especializadas em BD’s como, a cada ano, no último final de semana de janeiro, em Angoulême, ocorre um festival internacional dedicado às Histórias em Quadrinho, o Festival international de la bande dessinée d’Angoulême, o maior da Europa.

Fora isso, na Bélgica, país vizinho da França, onde também fala-se francês, existe a Fête de la BD, também conhecida como Stripfeest, evento incontornável para os amantes de quadrinhos, e que ocorre todos os anos, no começo de setembro, em Bruxelas, com duração de três dias.

Ficou claro, então, que, para a comunidade francófona, a Bande Dessinée é coisa séria, e não uma brincadeira de criança, né?!

 

5 BD’s franco-belgas que valem a pena ser lidas!

Agora que você já sabe tudo o que você precisava saber sobre BD’s, que tal investir na leitura de alguma delas, hein? 

Separamos para você cinco grandes obras dos quadrinhos em língua francesa para você se jogar sem medo de ser feliz!

  • Persépolis

Os quadrinhos autobiográficos da iraniana Marjane Satrapi contam sobre sua infância e adolescência no Irã, tendo como plano de fundo a Revolução que levou o país a um regime xiita. A BD deu origem a uma animação de mesmo nome e, no Brasil, foi traduzida pela Companhia das Letras.

  • L’origine

Um dia, Julius Corentin Acquefacques recebe uma página de uma história em quadrinhos e percebe que, dentro dela, é sua história que está sendo contada. Esta é a premissa do primeiro volume da série de quadrinhos desenvolvida por Marc-Antoine Mathieu, L’Origine

Para aqueles que curtem metalinguagem, essa BD francesa é um prato cheio de diversão! Sendo também uma boa pedida para aqueles que gostam de Kafka, pois, spoiler, Acquefacques é justamente anagrama para Kafka soletrado em francês!

  • Les Aventures de Tintin

O maior clássico belga de todos os tempos dispensa grandes apresentações. As histórias criadas por Hergé em 1929 ganharam o mundo, e até hoje são revisitadas em animações, como é o caso do filme norte-americano As Aventuras de Tintin (2011). 

Para quem quer começar a desbravar os inúmeros álbuns da série, vale a pena a leitura do tomo 17, cujo o título em francês é On a marché sur la Lune (As Aventuras de Tintim: Explorando a Lua).

  • Astérix 

Não dá para citar o grande clássico belga dos quadrinhos sem mencionar o maior clássico francês em termos de BD, não é mesmo? Criada em 1959, a série Astérix tem como personagens principais o guerreiro gaulês Astérix e o ingênuo Obélix. 

As histórias se passam por volta de 50 a.C., época em que o Império Romano invadiu a Gália. No entanto, apesar do contexto histórico bem delimitado, esses quadrinhos sempre foram muito atuais, pois parodiam a sociedade francesa contemporânea através dos estereótipos presentes na narrativa.

Dessa série, vale a pena ler o tomo seis, Astérix et Cléopâtre (Asterix e Cleópatra), de 1965, que virou filme em 1968. 

  • Pinocchio

Esqueça a história do Pinóquio tal qual você conheceu pelo filme da Disney! Nestes quadrinhos de atmosfera sombria, Pinocchio, não é mais um boneco de madeira nascido pelas mãos de Gepetto, mas um robô de aparência humana que vai descobrir o mundo violento habitado pelos homens. 

A BD de Vincent Paronnaud, também conhecido como Winshluss, é uma adaptação bastante livre, de cerca de 200 páginas, do romance de  Carlo Collodi, o autor de As Aventuras de Pinóquio.

Se você acha muito difícil a língua francesa, leia o nosso artigo, onde explicamos as vantagens que um falante de português leva na hora de aprender o francês.

 

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